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Quanto cobrar por hora sendo autônomo: a conta completa

Moedas ao lado de um relógio de mesa antigo sobre uma mesa de madeira escura

Quase todo mundo que começa a trabalhar por conta faz a mesma conta. Pega a renda que gostaria de ter no mês, divide por 160 horas e anuncia o resultado como preço da hora. Meses depois, a agenda está cheia, o dinheiro não sobra e a conclusão parece ser "preciso trabalhar mais". Não precisa. A conta é que estava errada desde o começo.

Por que dividir por 160 horas dá errado?

Porque 160 é a jornada de um empregado com carteira assinada, não a de quem trabalha por conta. Nesse número estão embutidas duas coisas que você não tem: alguém pagando as horas em que você não está produzindo, e alguém pagando o custo de existir profissionalmente.

O empregado recebe pelo mês inteiro mesmo quando passa a manhã em reunião interna, quando faz um treinamento ou quando o cliente atrasa o material. Você não. Você só recebe pelas horas que consegue transformar em entrega vendida. Todo o resto, e é muito resto, sai do seu bolso.

Quantas horas você realmente vende por mês?

Essa é a variável que derruba o cálculo. Entre abrir o computador e faturar existe uma faixa larga de trabalho não remunerado: responder orçamento que não vira contrato, refazer proposta, emitir nota, correr atrás de cliente que sumiu com o pagamento, estudar a ferramenta nova, cuidar da própria divulgação.

Quem mede costuma descobrir um número entre 50% e 70% da jornada. Numa rotina de 8 horas por dia, sobram algo como 4 a 5 horas e meia realmente vendáveis, ou faturáveis, os dois nomes valem para a mesma conta. Esse assunto rende sozinho, e está detalhado em horas faturáveis: quanto do seu dia vira dinheiro.

O ponto aqui é simples: use no cálculo a sua taxa real, medida, e não a jornada cheia. Se você ainda não tem esse número, comece a registrar suas horas por atividade por duas ou três semanas antes de fechar qualquer preço novo.

A conta, passo a passo

São três blocos para somar, mais um passo final que aplica o imposto por fora. É nesse passo final que a maioria erra: tratar o imposto como mais um valor fixo, somado junto com os outros custos, antes de saber quanto você vai faturar. No Brasil o imposto do autônomo quase sempre incide sobre o faturamento, não sobre o que sobra depois das despesas, então somá-lo como se fosse um custo fixo faz a conta girar em falso.

1. Custos fixos do trabalho. Internet, celular, aluguel ou parte do aluguel de casa usada como escritório, energia, softwares e assinaturas, contador, deslocamento, material de consumo. Some também a depreciação: se o notebook custou um valor e dura três anos, um trinta e seis avos dele é custo de todo mês.

2. O que você quer receber. A sua retirada líquida, o valor que efetivamente vai para a sua vida.

3. O que o autônomo não tem por padrão. Férias, décimo terceiro, previdência e reserva para os meses fracos não caem do céu. Se você quer trinta dias de descanso por ano, precisa embutir esse custo nos onze meses restantes. O mesmo vale para a reserva de emergência.

Some os três blocos e você tem a soma líquida mensal, o total que precisa sobrar depois do imposto. Agora aplique a alíquota do seu enquadramento por fora: divida a soma líquida por 1 menos a alíquota, em decimal. O resultado é o faturamento bruto que você precisa gerar, já com o imposto embutido. Quem diz a alíquota certa é o seu contador, porque ela muda conforme o enquadramento, o serviço e, no Simples Nacional, a receita dos últimos doze meses.

Só então divida o faturamento bruto pelas horas vendáveis do mês, não pelas horas trabalhadas.

Um exemplo com números

Custos fixos de R$ 1.500. Retirada desejada de R$ 6.000. Reservas de férias, décimo terceiro e caixa de segurança em R$ 1.100. Soma líquida: R$ 8.600.

Suponha uma alíquota de 6%, valor comum no Simples Nacional para boa parte dos serviços. O faturamento bruto necessário é R$ 8.600 dividido por 0,94, ou seja, R$ 9.148,94. É diferente de simplesmente somar mais R$ 516 de imposto: dividir por 0,94 embute o imposto sobre o valor final, que já inclui o próprio imposto, e é por isso que a divisão, e não a soma, é a conta certa.

Agora as horas. Jornada de 8 horas por dia, 21 dias úteis, o que dá 168 horas. Taxa de horas vendáveis medida em 60%: sobram cerca de 100 horas.

R$ 9.148,94 dividido por 100 horas resulta em R$ 91,49 a hora. Pela conta ingênua, dividindo apenas os R$ 6.000 desejados por 160 horas, o valor sairia a R$ 37,50. É a diferença entre um negócio que se paga e um que consome a sua poupança devagar.

A sua alíquota real pode ser outra, e vale confirmar com o contador antes de fechar qualquer preço. O que não muda é o mecanismo: o imposto entra por fora, como divisor sobre o faturamento, nunca como um valor fixo somado junto dos outros custos.

E se o cliente paga por projeto?

Continua valendo. Preço fechado não é o contrário de preço por hora, é o preço por hora escondido dentro de uma estimativa. Quando você cobra R$ 3.000 por um trabalho, está apostando em quantas horas ele vai consumir. Se a aposta é chute, metade dos projetos sai no prejuízo e você nunca descobre quais.

Ter o histórico real muda essa conversa. Depois de alguns projetos medidos, você sabe que aquele tipo de serviço leva em média 34 horas, e não as 20 que a memória insiste em dizer. O preço fechado passa a ser uma decisão, com margem calculada, em vez de otimismo.

O que acontece quando você não mede

Sem registro, o cérebro preenche as lacunas. E ele preenche mal: lembra do trabalho que fluiu bem e esquece as três horas de retrabalho depois do "só um ajustezinho". O resultado é um retrato sistematicamente otimista da própria produtividade, que empurra o preço para baixo.

Vale um contraponto honesto. Nenhuma planilha define o preço sozinha. Existe o que o seu mercado paga, existe a sua experiência, existe o valor que o serviço gera para quem contrata. Um cálculo de custo não obriga ninguém a aceitar o seu número. O que ele faz é te dizer, com precisão, abaixo de quanto o trabalho deixa de valer a pena, e essa é uma informação que nenhum "preço de mercado" entrega.

Revise a cada seis meses

Custo sobe, ferramenta nova entra, sua experiência aumenta e o tempo gasto em cada entrega cai. Um valor-hora calculado uma vez e congelado envelhece rápido. Coloque um lembrete semestral para refazer a conta com os dados do período, que a essa altura você já terá.

Seu número não é o do exemplo

Os R$ 91,49 desta página são uma demonstração, não uma recomendação. O seu valor sai diferente, porque os seus custos, a sua alíquota e a sua taxa de horas vendáveis são outros. Os três primeiros blocos você levanta hoje, com o extrato na mão. O quarto, justamente o que mais derruba o preço, ninguém estima de memória.

Então o próximo passo é um só: abra o cronômetro e comece a medir. Em duas semanas você troca o palpite por um denominador real, e refaz essa conta com o seu número no lugar do meu.

Para consultar

Seu valor-hora só fica certo com horas medidas

Cronometre duas semanas de trabalho, por cliente, e a conta deste artigo deixa de ser estimativa. O Timesheet do Autônomo registra jornada e atividades, desconta pausas e exporta em PDF. Grátis, sem cadastro, com os dados só no seu navegador.

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