Precificação
Quanto o autônomo precisa faturar para compensar sair da CLT?

Empatar não é motivo para sair da CLT. O autônomo que fatura o mesmo que ganhava de salário trocou férias, décimo terceiro e FGTS por mais responsabilidade e mais horas, e recebeu zero por isso. A conta que interessa não é a do empate. É a de quanto precisa entrar em cima dele.
Quanto você precisa faturar como autônomo?
Some 13º, férias, o terço e o FGTS ao salário para achar o valor econômico do emprego, junte as guias obrigatórias e divida pelas horas que você realmente vende. Isso dá o piso. Compensar exige um prêmio em cima: pelas horas a mais e pelos meses sem cliente. No cenário deste post, quase duas vezes o salário antigo.
O que o rendimento médio da notícia esconde
A PNAD Contínua divulgada em 27 de agosto trouxe a desocupação em 5,3%, a menor da série para o trimestre encerrado em julho, com 103,3 milhões de ocupados e a carteira assinada em recorde de 39,4 milhões. O conta própria ficou em 26,1 milhões, subindo 0,6% em um ano contra 0,9% do total.
O número que virou manchete foi o rendimento médio de R$ 3.762, e ele sozinho não responde à sua decisão.
Primeiro porque a população ocupada do IBGE inclui você: empregados, servidores, empregadores e os 26,1 milhões de conta própria entram na mesma média.
Segundo porque média esconde o topo. Em 2025, a média de todos os ocupados foi R$ 3.447, mas a de quem tem carteira no setor privado foi R$ 3.176. A média geral fica 8,5% acima do celetista típico, porque empregadores e servidores puxam para cima.
Valores de 2025, no trabalho principal, por posição na ocupação:
- Empregador: R$ 8.639
- Empregado no setor público: R$ 5.301
- Conta própria com CNPJ: R$ 5.233
- Empregado no setor privado com carteira: R$ 3.176
- Empregado no setor privado sem carteira: R$ 2.493
- Conta própria sem CNPJ: R$ 2.184
Por escolaridade, entre todos os ocupados, a distância é maior ainda: R$ 1.915 sem o fundamental completo, R$ 2.640 com médio completo e R$ 6.947 com superior completo.
O IBGE não publica mediana nesses recortes, só média. Separar por categoria é a defesa possível contra a distorção do topo. Ache a sua linha antes de seguir: a conta muda conforme o ponto de partida.
Salário não é faturamento, e faturar mais não é ganhar mais
São quatro coisas diferentes. Salário é o que aparece no contracheque, faturamento é o que entra no CNPJ antes de qualquer custo, renda líquida é o que sobra, e valor econômico do emprego é tudo que a carteira entrega no ano. É o último que serve de alvo, porque é ele que você precisa reproduzir sozinho.
Use os R$ 3.176 de quem tem carteira. Quem recebe isso recebe também o 13º e o terço constitucional de férias: 13,33 salários por ano, ou R$ 42.347. Some o FGTS, 8% depositado sobre a remuneração, o 13º e as férias, e chegam mais R$ 3.388. O valor econômico do ano fecha em R$ 45.734.
O FGTS entra aqui como componente do valor anual do emprego, não como dinheiro no bolso: só vira saque em demissão sem justa causa, aposentadoria e poucos outros casos. Em compensação, a multa de 40% ficou de fora.
E os dois lados estão em bruto. Do salário ainda saem INSS e imposto de renda; do faturamento ainda saem as guias e o imposto do seu regime.
Quanto custa ser MEI, de verdade
Daqui em diante o cenário é de quem se formaliza como MEI prestador de serviços, um dos caminhos possíveis, não o único: outro enquadramento tem outros custos e pede outra conta.
O critério é simples: só entra o que passou a existir porque você saiu da CLT. Computador, mesa e cadeira são compra de uma vez, não despesa mensal. Internet e energia você já pagava.
Sobram dois itens, e os dois são obrigação.
O primeiro é a guia mensal. Em 2026, o MEI de serviços paga R$ 86,05: R$ 81,05 de INSS sobre o salário mínimo e R$ 5,00 de ISS. Comércio e indústria pagam R$ 82,05.
O segundo aparece quando você lê o que a guia compra. Os 5% de INSS embutidos nela dão aposentadoria por idade, não tempo de contribuição, e a diferença é cara: na carteira, a sua contribuição incidia sobre o salário inteiro. Recuperar isso custa mais R$ 243,15 por mês numa guia separada, os 15% que fecham a alíquota cheia.
São R$ 329,20 por mês, ou R$ 3.950 no ano. Pequeno perto do salário, e grande perto do que a maioria estima, porque quase todo mundo lembra só do DAS. Se precisar alugar sala ou contratar contador, some por cima: o que vem é o piso do piso.
O piso: R$ 36,09 por hora vendida
O alvo anual é o valor econômico mais as guias: R$ 49.685, ou R$ 4.140 por mês.
Falta o divisor, e é aqui que quase todo texto erra. As 220 horas mensais que todo mundo usa não são horas trabalhadas: são horas pagas, com o descanso semanal embutido. Trabalho mesmo são 44 horas por semana, ou 2.294 horas no ano.
E o celetista nem chega a essas 2.294: com 30 dias de férias e uns dez feriados, trabalha perto de 2.032 horas. O autônomo que não tira férias trabalha 13% mais pela mesma jornada semanal.
Assumindo, para esta simulação, que 60% das suas horas viram hora de cliente, sobram 1.377 horas vendidas no ano. R$ 49.685 divididos por elas dão R$ 36,09 por hora vendida.
Três números:
- R$ 14,44: o que você calcula dividindo o salário por 220
- R$ 22,51: o que a carteira realmente vale por hora efetivamente trabalhada
- R$ 36,09: o que você precisa cobrar por hora vendida para empatar
A distância entre o segundo e o terceiro não é lucro: é a fatia do seu dia que não vira dinheiro mais as guias.
O prêmio, em três cenários
Empatar ainda não compensa. Faltam duas coisas, e as duas são premissas suas.
A primeira é a jornada. Trabalhar mais faz o valor-hora necessário parecer menor: em 55 horas semanais, os mesmos R$ 4.140 se diluem em 25% mais tempo. O certo é o contrário, segurar a hora em R$ 36,09 e subir o mês para R$ 5.176. A planilha aprova o que a vida reprova.
A segunda é o risco de renda. Se você fatura 10 meses cheios em 12, porque janeiro é fraco e um cliente sempre atrasa, o ano tem que fechar nos meses bons: os R$ 5.176 viram R$ 6.211.
Como são escolhas e não dados, vale ver o alvo mudar com eles:
| Cenário | Jornada e meses faturados | Alvo por mês | Vezes o salário | Hora vendida |
|---|---|---|---|---|
| Favorável | 44h, faturando 12 meses | R$ 4.140 | 1,30 | R$ 36,09 |
| Intermediário | 55h, faturando 10 meses | R$ 6.211 | 1,96 | R$ 43,31 |
| Conservador | 60h, faturando 9 meses | R$ 7.528 | 2,37 | R$ 48,12 |
O intermediário é o que este post usa daqui para a frente. Se a sua realidade for a primeira linha, o alvo é bem menor. E nenhuma das três paga por você ser sozinho o comercial, o financeiro e o cobrador.
Ache o seu alvo, e veja se ele cabe no MEI
A conta cabe numa linha: multiplique o salário por 14,4, some R$ 3.950 de guias, divida por 12 e multiplique por 1,5. O 14,4 é aproximação metodológica dos 13,33 salários com 8% de FGTS por cima, não um salário recebido 14,4 vezes. O 1,5 são as 55 horas e os dois meses fracos.
| Salário na carteira | Valor econômico no ano | Alvo por mês | Alvo no ano | Do teto do MEI |
|---|---|---|---|---|
| R$ 2.000 | R$ 28.800 | R$ 4.094 | R$ 49.126 | 61% |
| R$ 3.176 | R$ 45.734 | R$ 6.211 | R$ 74.527 | 92% |
| R$ 4.000 | R$ 57.600 | R$ 7.694 | R$ 92.326 | 114% |
| R$ 5.000 | R$ 72.000 | R$ 9.494 | R$ 113.926 | 141% |
Olhe a última coluna. A partir de cerca de R$ 3.480 de salário, o alvo passa dos R$ 81 mil que o MEI permite por ano. Quem ganhava mais que isso não compensa a saída dentro do enquadramento: o caminho passa a ser outro regime, com contador e outra tabela de imposto, e a conta precisa ser refeita. Essa parte é conversa com contador, não com blog.
O teto está parado em R$ 81 mil desde 2018, enquanto os salários subiram: é isso que aperta a faixa. Vale saber o que já vale e o que ainda é promessa sobre o limite antes de planejar o ano.
O que o mercado paga, e quando ficar na carteira
Compare o alvo com o que o IBGE mediu. O autônomo com CNPJ ganhou R$ 5.233 em média, 65% mais que quem tem carteira. O sem CNPJ ganhou R$ 2.184, 31% menos. Trabalhar por conta paga bem, desde que formalizado: é a maior diferença deste texto, e desmente qualquer leitura de que sair da CLT seja sempre pior.
Mas R$ 5.233 está 16% abaixo dos R$ 6.211 do cenário intermediário: na média, o autônomo formalizado ganha mais que o celetista e ainda assim não cobriu o custo da troca. E dá R$ 62.796 no ano, 77,5% do teto. Vale conferir quais direitos entram e saem ao trocar a CLT pelo CNPJ antes de decidir.
O caso que fecha o argumento: R$ 2.000 na carteira, 44 horas por semana, contra R$ 2.500 por conta, 60 horas por semana.
Os R$ 2.000 valem R$ 28.800 no ano, com 13º, terço e FGTS, por cerca de 2.032 horas trabalhadas. Dá R$ 14,17 a hora. Os R$ 2.500 dão R$ 30.000, por 3.129 horas. Dá R$ 9,59, e daí ainda saem as guias. O salário menor paga 48% mais por hora.
Faturar mais não é ganhar mais. Às vezes é só trabalhar mais barato.
Se o seu mercado não paga o prêmio, isso não se resolve com disciplina. É preço, e preço tem teto no que o cliente aceita. Escolher horário e recusar cliente têm valor real, só não em reais. Ficar por conta sabendo que ganha menos é escolha legítima; achar que ganha mais é que sai caro.
O número que decide é o das suas horas
Repare no que moveu esta conta. Não foi o salário, nem a média do IBGE. Nem as guias, que são R$ 329 fixos e conhecidos. Foram as horas: as que você trabalha por semana, as que sobram vendáveis e os meses em que não viram fatura. São elas que separam um alvo de R$ 4.140 de um de R$ 7.528.
E são o número que ninguém tem. Quem trabalha por conta estima a semana de memória, quase sempre para menos, e conclui que compensa quando não compensa. O Timesheet separa o relógio da jornada do relógio da atividade exatamente aí: um mostra o tamanho real da semana, o outro quanto dela foi trabalho de cliente. Cronometre as duas coisas por duas semanas e descubra em qual linha da tabela você está.
Com o aproveitamento real na mão, o passo seguinte é fechar o preço em quanto cobrar por hora sendo autônomo.
Para consultar
- Rendimento médio real por posição na ocupação, tabela 4659, PNAD Contínua, IBGE, dados de 2025
- Rendimento médio real por nível de instrução, tabela 7443, PNAD Contínua, IBGE, dados de 2025
- Desemprego cai para 5,3%, o menor para o trimestre terminado em julho, Agência Brasil, 27 de agosto de 2026
- Desemprego no Brasil cai a 5,3% no trimestre encerrado em julho, com recorde de pessoas ocupadas, Brasil de Fato, 27 de agosto de 2026


